Intervenção do professor José Machado na apresentação do livro A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial – De Chaves a Copenhaga, de Gil Manuel Morgado dos Santos e Gil Filipe Calvão Santos, no dia 31 de Janeiro, sábado, em Chaves:

«O piolho é inteligente
Companheiro do soldado
Por morder tão fortemente
Deve ser condecorado

O
corned beef afamado
Zangou-se com o feijão
Foi dado incapaz o vinho
Anda de licença o pão


Estas duas quadras foram-me transmitidas pelo doutor Avelino Lestra em 4 de Abril de 2009, a propósito das agruras passadas pelos soldados e das circunstâncias em que o foram na I Grande Guerra Mundial, acontecimento que aqui nos volta a trazer, quase cem anos passados, por causa dos incómodos que a mesma causou e continua a causar, tantas são as semelhanças de mundo que hoje aproximamos dela e tantas são as consequências inquietas de nos terem ficado em guarda os documentos memoriais daqueles que a fizeram e a sofreram. O neto e o bisneto do soldado António dos Santos herdaram o livro da inquietação e agora andam a dá-lo a ler a nós todos que ainda guardamos alguma memória da fala que o veicula, essa linguagem da oralidade rural, esse pronunciamento dialectal da nossa língua mãe, a arca de todas as nossas criações. Eu já dissera em outras ocasiões quanto este documento manuscrito fora meu encanto de ler, ouvindo nele essa forma de falar que os puristas sempre consideram produto de incompletas ou ausentes aprendizagens escolares, mas que os poetas e linguistas e etnólogos hão-de considerar viveiro de cognição, retrato de lugar, estado de alma, expressão vital.

(Uma oralidade arcaizante, não só na escrita de vocábulos, mas também na construção das frases, nesse estilo exclamativo e lamentativo de Fernão Lopes, Oh que, ó, ó, ai, ai que, nesse amalgamento de palavras, nessa inversão dos elementos da frase: virgo – eis – aqueis – alembrar – espedir – feluge – adervetir – bagas – esbruçar – aispera – terpar – desapiar-se – esbagoar – atromelizar – tolheitos – imporem – esbandalhados – nada ouve por deus crer – cribar – estermozo – nevoeira – plaino – estardalhada – lonjura – dejejuar – devérias – necidade – espormentar – podendo eis que tanto tinham com quê – inleticidade – ingrunhar – tamoeiros – afazer-se – mesturar – à escapula – terboada – chamiças – lisquinha – cacabinas – mourões – joeiras – bejocarias – astrever – cabotar – monjir – comestivos – leva unicamente o que menos puder levar para melhor se poder desenvolver – bagar – catar – ficar em nu – escabado – avivar – rebotezinho.)

Considero muito feliz nesta edição o trabalho de entretecer o relato do manuscrito com a história, tomando-o como fio condutor da investigação, citando-o amiúde e dando-lhe a mancha gráfica sanguínea de prova absoluta. Agora vou-me fixar nas obsessões da escrita deste homem que foi à guerra e veio dela para deixar ainda muito por dizer, porquanto o que verdadeiramente passou só Deus o saberá. Passou, cá temos então o verbo nuclear de todo o relato do soldado António, verbo pleno de valores semânticos, quase em absoluto realizado, apenas lhe faltando o sentido de passamento pessoal final, mas concretizado que foi em todos aqueles que caíram ao seu lado ou que viu em todos os estados de configuração do que é morrer em guerra. Em que obsessões me fixei então como leitor? Em primeiro lugar no próprio processo intrínseco à oralidade da escrita que consiste na repetição circular de palavras e expressões para dizer o que pretende; a repetição na oralidade é a prova, a marca do vivido, a sua expressão total. O recalcado, pela repetição é que ganha o sentido pleno. Os traumas requerem a circulação, a perífrase, a repetição, para veicularem as vivências que os originaram. O sujeito da enunciação é um jovem adulto, lavrador, basicamente escolarizado, mobilizado de urgência para a vida militar e para uma situação de guerra fora do seu país e complexamente justificada como sendo a favor da pátria em perigo. O sujeito da enunciação vai viver intensamente dezoito meses e vai verbalizar esta intensidade do vivido com a linguagem que traz de sua infância e adolescência e vida aldeã. No resultado final, o discurso apresenta alguns casos de assimilação e de adaptação vocabular, integra alguma linguagem militar primária, mas é todo estruturado a partir da linguagem matricial da ruralidade, da terra, da lavoura. É nesta massa discursiva que ganham dimensão cinco áreas da cognição forçada que a guerra obriga o sujeito a fazer: uma, a expressão da saudade, outra a expressão da fome, outra a expressão do medo, outra a expressão da sobrevivência, outra a expressão da consciência militar. Na expressão da saudade, ouvimos o soldado a reunir as palavras para nos falar da dor da separação dos pais e dos irmãos e dos vizinhos, ouvimo-lo também integrar neste expedimento e nesta despedida as terras do seu lugar (Ao passar dizia adeus / às terras que cultivava…), as mesmas terras a quem se dirige no regresso: (Como estais veigas tão belas / Pensei mais de vos não ver…), numa revelação religiosa da integração dos valores queridos, transcendentes, em nome dos quais aceita ir dar a vida (recusando a ideia de fuga ou suicídio). Serão os pais, mas será também a sua aldeia a estar sempre presente na expressão deste sofrimento da distância, lembrando, nos momentos de esconjuro do inimigo, as festas do natal, do carnaval e da Páscoa, lembrando a beleza ímpar do lugar onde nasceu. Na expressão da fome, o pão é o vocábulo paradigma de toda a construção discursiva: ter pão, comer pão, arranjar pão, distribuir o pão. É em torno do pão, símbolo de toda a alimentação que a guerra provê ou cerceia, que esta vivência da guerra adquire simultaneamente a função traumática e a função heróica: (o nosso comandante encontrou-nos carregados de pão como ouriços-cacheiros… Ó fome, fome, que és tão negra; verdadeiramente só te conhece quem por ti passa de vérias, mas de vérias… e viram que íamos cegos com fome…). A expressão do medo resulta de uma descrição das manobras militares a partir da linguagem mais chã, com recurso parco a vocábulos da esfera militar. Nesta expressão do medo sobressai a experiência do espanto com a artilharia, sobressai o cansaço das marchas e deslocações, sobressai o terror perante os corpos mutilados e mortos, sobressai o desespero das orações, sobressai o calculismo das sortidas à terra de ninguém. A presença de metáforas da vida quotidiana, como as covas dos castanheiros para referir o resultado das granadas, como as máscaras de carnaval para referir as máscaras antigás, como o recurso intensivo à metáfora da sorte, espelham bem como ele nos faz perceber a violência do não dito que foi a guerra em si. (Trouxe meu corpo sãozinho / é muito de alegrar / como é a guerra só acredita / quem porela assim passar…). A expressão da sobrevivência é dada por um discurso pontuado de ironias (a fartura podia-se bem com ela…), com uma descrição genérica dos procedimentos que, sobretudo na situação de preso, determinaram a resistência física. Nesta organização discursiva sobressai a descrição da higiene corporal, o suor, as mudanças de roupa, os banhos, as desinfecções de roupas e enxergas, com referências aos piolhos e à qualidade do caldo, à lama das trincheiras, às condições de descanso ou de sono, pontuadas por alguma comicidade. O sujeito faz-nos perceber as dificuldades por que passou num estilo sumário de referências ao que come e às vezes em que o faz ou não faz, aos cuidados a ter com os guardas, às ajudas dos soldados franceses, às manhas de relação uns com os outros. É nesta área da expressão da sobrevivência que estão as peripécias mais divertidas, o que já diz da tenacidade rural em que foi preparado para a vida e das vantagens narrativas que no após guerra se podem tirar quando se tiver de falar da guerra. É nesta área de expressão que está também uma consciência irónica do que é mais difícil de suportar, se a guerra, se a sobrevivência (Fui meter-me na miséria / não faltando à verdade; deixei de combater balas / e fui lutar com a necessidade…) Finalmente a expressão da consciência militar, o sujeito constrói um discurso linear de cumprimento de ordens e de realização das manobras, sem dar qualquer sinal de que devia explicar ou justificar (cumprir o dever de soldado / bem me custou a cumprir… Em defesa da liberdade / cumpri minha obrigação / combati enquanto pude / contra o malvado alemão…). Neste aspecto o seu discurso tem de ser lido como cumprimento de um dever que remete o leitor para a procura de justificações a outro nível. Contudo a vivência da situação de prisioneiro deu ao sujeito matéria suficiente para a crítica não só ao inimigo mas também aos seus comandantes e superiores e até ao país na sua esfera de poder político. Este modo de expressar o descontentamento com o governo da República, ao fim e ao cabo com Portugal, pode revelar uma consciência crítica discursiva posterior à vivência dos acontecimentos, mas muito coerente com ela. O resultado final desta narrativa é o oferecimento aos leitores de uma experiência singular de vivências (esta a triste vida de um 1.º cabo na Grande Guerra de 1917 e 1918) que, não problematizando os dados adquiridos nem avançando a defesa de qualquer tese, termina com a alegria do regresso ao seio materno, à terra, à Pátria, (Trouxe vitória e liberdade / não há riqueza maior) com a convicção de que só Deus saberá o que ele passou, de outra forma seria preciso um missal.»

José Machado